19/09/2016

Christian Shaw, Garotinha que iniciou a Caça às Bruxas da Santa Inquisição na Escocia


Essa é uma história de feitiçaria, maldições, espionagem industrial e guerra de fortunas que aconteceu na Escócia, em 1696, apenas 4 anos após o Julgamento das Bruxas de Salém, em que uma garotinha de 11 anos de idade foi o centro de uma monstruosa investigação e execução de Bruxas.

Tudo começou em um dia qualquer quando a pequena Christian Shaw, de 11 anos, filha do Lord Bargarran de Renfrewshire, pegou Catherine Campbell, uma das empregadas domésticas de sua família, tomando leite sem permissão. Quando Shaw contou à sua mãe sobre isso, Campbell teria dito à menina que "O Diabo lançará sua alma ao Inferno."

Christian Shaw, depois de adulta

Pouco tempo depois, Shaw começou a sofrer de todos os sinais típicos de que uma bruxa estaria atormentando-a. Marcas apareceram em seu corpo, ela tinha convulsões e espasmos frequentemente, e contam que ela entrava em discussões teológicas complexas com um Diabo invisível. Shaw começou a ter ataques súbitos em que cuspia objetos que as bruxas supostamente colocaram dentro dela através da magia, entre eles, feno sujo, penas de galinha, pedras, nozes amargas, bolos de cabelo, cinzas, parafina de velas e cascas de ovos. Durante esses ataques, Shaw entrava em uma espécie de transe em que conversava com uma Campbell invisível, pedindo-lhe um retorno à sua antiga amizade. Contam que ela levitava inconsciente e que objetos se moviam em sua presença. Mas a gota d'água aconteceu quando a garota cuspiu para cima um carvão em brasa na frente de um médico local, Dr. Matthew Brisbane que, confuso, diagnosticou a garota como alguém sob "possessão demoníaca", fato que convenceu seu pai a recorrer à lei para prender todas as pessoas a quem ela acusou (algumas fontes citam que foram 35 acusados).

Encenação do Julgamento em um festival da cidade, relembrando as atrocidades daqueles dias.

No total foram 21 pessoas investigadas, entre homens, mulheres e crianças, que foram jogados na prisão e examinados pelos "perfuradores de bruxas", que procuravam, com uma agulha, locais dormentes em seus corpos ou alguma imperfeição, talvez tão insignificante como uma sarda, garras do diabo, que comprovaria sua culpa. Eles foram colocados diante da pequena Shaw, e a simples presença deles a fizeram cair em convulsões. John Lindsay, um garoto de 12 anos de idade, foi uma dessas pessoas que acabaram presas. Isso aconteceu após ele mesmo afirmar que seu pai era o Diabo e que podia voar como um corvo. A essa altura, já tinha ocorrido algumas mortes questionáveis, incluindo a de um ministro local e algumas crianças saudáveis.


Quatorze dos acusados ​​foram investigados e liberados. Mas, três homens e quatro mulheres, inclusive Catherine Campbell, foram considerados culpados e condenados à morte. John Reid, um dos homens condenados por bruxaria, não esperou seu fim trágico e doloroso: ele se suicidou pendurado a um pino na parede por um lenço. Na época acreditaram que ele havia sido estrangulado pelo Diabo. Na manhã seguinte, dia 10 de junho de 1697, o restante dos acusados foram enforcados e depois queimados na Forca Municipal de Paisley, diante de uma grande multidão, que incluía crianças e, entre elas, a pequena Christian Shaw. John e James Lindsay, de 12 e 14 anos, respectivamente, eram irmãos e morreram de mãos dadas na forca. Dizem que os condenados ainda estavam vivos quando seus corpos foram queimados e que um dos executores teria emprestado sua bengala a um espectador, com a qual ele empurrava as vítimas relutantes de volta ao fogo. O dono da bengala não quis mais o objeto de volta depois de ter estado em contato com os corpos das bruxas. Após as execuções, relataram que Shaw tinha sido completamente curada. Esta foi a última execução em massa por bruxaria na Europa Ocidental.

Remanescentes da antiga Forca de Paisley, Escócia

Após o acontecido, que ficou conhecido como o Julgamento das Bruxas de Pasley, acreditava-se que Shaw foi inicialmente amaldiçoada para terminar seus dias como uma "solteirona!". Porém aos 34 anos, ela finalmente se casou, mas acabou ficando viúva rapidamente com a morte prematura de seu marido. Então ela começou a correr atrás de seu próprio sustento. Na época, a Holanda era conhecida por seus produtos requintados. Shaw convenceu um comerciante a contrabandear alguns equipamentos holandeses para a Escócia.

Oferendas para as almas das Bruxas assassinadas no Julgamento de 1697. Próximo às ruínas da antiga Forca.

Ela montou sua própria Companhia de Tecelagem Bargarran e construiu uma fortuna considerável, se casou e viveu o resto de seus dias em felicidade surpreendente. Mas as outras Fortunas de Paisley foram menos favorecidas, apesar de tudo. Existe uma lenda local que diz que quando as bruxas foram enforcadas e queimadas, suas cinzas foram enterradas onde hoje é o cruzamento de ruas conhecido como Maxwellton, em Paisley, a oeste do centro da cidade. Uma das bruxas, Agnes Naishmith, antes de morrer teria amaldiçoado a cidade e todos os seus descendentes. Com medo da maldição, eles selaram a cova comunitária das bruxas com uma ferradura. No entanto, a cidade começou a declinar na década de 1960, quando a vala comum das bruxas foi perturbada durante as obras rodoviárias, em que a ferradura foi inconsequentemente removida de seu lugar para dar lugar à pavimentação, o que retirou o selo que prendia o mal dentro da tumba.

Local onde as cinzas das Bruxas estão enterradas, um cruzamento de ruas chamado Maxwellton, em Paisley

Apesar dos estudiosos acreditarem se tratar de uma sórdida coincidência, o mito é algo muito forte na região, a ponto de a população reconstruir o monumento, a ferradura, feito por Alexander Stoddart, para voltar a selar o túmulo e acalmar os espíritos vingativos das bruxas. A ferradura de aço inoxidável embutida nele possui a inscrição "dor infligida, sofrimento suportado, injustiça feita". A campanha foi lançada em 2008 e os organizadores enviaram petições ao Parlamento escocês para perdoar todos os 4000 homens, mulheres e crianças processados ​​sob as leis de bruxaria nos séculos 16 e 17, mas os legisladores argumentaram que era inapropriado perdoar aqueles que foram julgados e condenados, deixando-os ao abrigo das leis de seu tempo. Hoje em dia, a ferradura substituta está se soltando e por vezes perturba o volume de tráfego da rua em que se encontra. Alguns projetos da atualidade se voltaram para reerguer a cidade que, em 2012, foi considerada a cidade com o maior número de lojas vazias e desativadas de todo o Reino Unido.

Memorial das Bruxas de Paisley, na inscrição: "Dor infligida, sofrimento suportado, injustiça feita"

Alguns historiadores acreditam hoje que a Caça às Bruxas de Paisley, Escócia, pode ter sido influenciada e até mesmo modelada a partir da sinistra experiência americana de Salém. A interpretação moderna para o caso da maldição induzida a Christian Shaw por Catherine Campbell, pode ser entendida a partir de Sigmund Freud, com o diagnóstico de "Transtorno de Conversão", anteriormente conhecido como Histeria, condição médica em que os pacientes sofrem de intensa ansiedade que é convertida em sintomas físicos sem causa aparente.

Bargarran House, a casa onde morava Christian Shaw na época do acontecido.

Pesquisadores acreditam que os famosos julgamentos das bruxas não passavam de armadilhas políticas, para retomar ou aumentar o controle social, imposto pela Igreja e pelo Governo em tempos de crise em que a população se encontrava em baixo "tom de moralidade" e falta de entusiasmo religioso e patriótico. Em 1839, um pequeno buraco foi descoberto na parede do quarto da Shaw em sua antiga casa, conhecida como "Bargarron House", que até então havia se tornado uma atração turística local, através do qual um cúmplice poderia ter passado os itens que ela supostamente removia de sua boca.

Fontes e agradecimentos:
Scotland Magazine
BBC Scotland
Wikipedia

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