O Mistério do Crânio desaparecido de Shakespeare


Em Hamlet, Shakespeare coloca um crânio no centro de uma cena icônica de seu teatro. Agora, seu próprio crânio está no centro de um mistério!

A Lenda pode ser Verdade

Um artigo do Diário Público de Lisboa, no dia 26 de março de 2016, trouxe uma notícia um tanto inusitada: "Novas Investigações defendem que o crânio de William Shakespeare teria sido roubado em 1794 de sua sepultura".

A Lenda Urbana do sumiço da caveira de Shakespeare é antiga, mas veio à tona agora porque, justamente neste próximo sábado, dia 23 de abril de 2016, completam-se exatos 400 anos da morte do mundialmente reconhecido dramaturgo inglês.

 Pintura de William Shakespeare, por Martin Droeshout, Domínio Público
A história defende que a tumba de Shakespeare foi violada, no final do século XVIII (1794), e seu crânio levado para bem longe da Igreja da Sagrada Trindade, em Stratford-Upon-Avon, no condado de Warwickshire, Inglaterra, em que foi sepultado.



A história toda não é nova. 250 anos após a morte do dramaturgo (por volta do ano de 1866), surgiram rumores de que seu crânio havia sido roubado por caçadores de relíquias. Em 1875, o Professor de Anatomia Hermann Schaaffhausen, da Universidade de Bonn, na Alemanha, já inteirado da Lenda, apelou para que o túmulo de Shakespeare fosse aberto e seu crânio exumado. O interesse do Professor era puramente científico, mas seu apelo provocou uma espécie de furor a partir daqueles que acreditavam que haveria uma maldição para quem violasse a sepultura, e nada foi feito. Porém, em 1879, a Revista "The Argosy" publicou um artigo chamado "Como Crânio de Shakespeare foi roubado" assinado por um autor desconhecido que usava o pseudônimo de "Um Homem de Warwickshire" afirmando que o crânio do dramaturgo fora roubado em 1794, por um médico da localidade, Dr. Frank Chambers, isso em um momento em que a Frenologia (teoria que defende ser possível determinar o caráter, a personalidade, e o grau de criminalidade pela forma da cabeça, lendo "caroços ou protuberâncias") e a Craniometria (medida que classifica a raça, temperamento criminoso, inteligência, etc.) ganhavam espaço no universo científico. Hoje desacreditadas, essas ciências eram vistas como um meio de determinar a inteligência e a genialidade. Sendo assim, muito natural que o crânio de Shakespeare fosse realmente o maior alvo desses pesquisadores.

Túmulo de Shakespeare, no canto esquerdo, abaixo, com flores. Ao lado dele, outras personalidades também sepultadas.
O artigo da Revista The Argosy nunca foi levado a sério, mas Kevin Colls, do Centro de Arqueologia da Universidade de Stratfordshire e líder da equipe responsável pela investigação, acompanhada pelo Canal 4 (Rede de televisão britânica), no documentário "Secret History: Shakespeare's Tomb" (Segredos da História: A Tumba de Shakespeare) quis saber mais. Inicialmente, a história lançada na Revista The Argosy, desafiava a noção de que o túmulo realmente precisava ser aberto, sugerindo que alguém já tenha feito isso. Colls diz: "Se o relato do assalto à sepultura é uma história inventada, então é inacreditavelmente precisa em todos os detalhes". Segundo contou ao New York Times, há uma correspondência perfeita da profundidade a que os profanadores escavaram, bem como o percurso seguido pelos ajudantes de Chambers, antes e depois da profanação, reconstituídos através dos registros das pousadas em que teriam pernoitado.

A motivação de Chambers residiria, segundo Colls, numa aposta feita pelo Conde Horace Walpole, político, historiador de arte e autor do romance gótico "The Castle of Otranto" (O Castelo de Otranto, que teria inspirado Ann Radcliffe, Bram Stoker, Daphne du Maurier e Stephen King). Se alguém lhe trouxesse o crânio de Shakespeare, ele lhe daria 300 libras. Dá até para imaginar o Conde Walpole em um dos salões de sua mansão gótica, erguida em Strawberry Hill, Twickenham, sudoeste de Londres, a encenar a famosa cena de Hamlet...

Strawberry Hill House, erguida pelo Conde Horace Walpole, em 1749 e restaurada em 2012
No supracitado New York Times, Alison Findlay, da British Shakespeare Association (Associação Britânica de Shakespeare), contrapõe as certezas de Kevin Colls à sua: "O artigo da The Argosy é, conscientemente, uma paródia", sentencia. Porém Findlay não põe em causa os resultados do geo-radar, que parece indicar que o Shakespeare sepultado perdeu de fato a cabeça.

Conviver com o Mistério

Em 2014, após vencer resistências iniciais dos responsáveis pela Igreja da Sagrada Trindade, Kevin Colls e a geofísica Erica Utsi começaram a investigar o espaço onde William Shakespeare foi sepultado ao lado de sua mulher Anne Hathaway. O cenário revelado pelas ondas do radar provou serem falsas velhas histórias: a de que o dramaturgo teria sido enterrado na posição vertical, a que defendia que o corpo se encontrava sepultado a uma profundidade de 5 metros, ou que repousaria em uma tumba familiar. Tudo isso foi desmentido pelo geo-radar. Na verdade, o corpo encontra-se cerca de um metro abaixo do solo, sem caixão, envolvido numa mortalha. E, aparentemente, sem crânio.

Imagem extraída do documentário "Shakespeare's Tumb", análise com o geo-radar.
"Deparamo-nos com esta coisa bizarra, estranha, na zona da cabeça", declarou Kevin Colls, à Revista The Guardian. "Era óbvio, em toda a informação recolhida que havia qualquer coisa diferente naquele lugar. Concluímos que são sinais de perturbação, de material que foi escavado e voltado a colocar no interior".

Imagens do geo-radar
O mapa visual produzido pelas ondas de radar indica que a parte inferior do corpo se apresenta em estado semelhante ao dos restantes enterrados na Igreja. Mas a cabeça, acreditam os pesquisadores, já não estava mais lá. Esta convicção levou-os a deslocarem-se à Igreja de São Leonardo, na localidade de Beoley, Worcestershire, a 24 quilômetros de distância. Segundo ainda outra lenda da mitologia shakespeariana, era ali que o crânio do dramaturgo estava enterrado. Não era: o crânio pertencia a uma septuagenária e a equipe de Colls fez, inclusive a reconstituição forense do rosto da senhora incógnita para provar.

Livreto publicado em 1884, "Como o Crânio de Shakespeare foi roubado e encontrado",  segunda publicação de "Um Homem de  Warwickshire", que trazia consigo a mais nova crença: o crânio havia sido deixado em cima de um livro que falava da morte de Shakespeare, em uma Igreja de São Leonardo.
Uma coisa curiosa, no entanto, é que muitos insistem que o autor das obras "Como o Crânio de Shakespeare foi roubado" e "Como o Crânio de Shakespeare foi roubado e encontrado", dois livros assinados pelo pseudônimo de "Um Homem de Warwickshire", é desconhecido. Na verdade, eles foram escritos sim, pela mesma pessoa, o Rev. Charles Jones Langston, que admitiu depois a autoria das obras e que a Igreja em que foi encontrado o crânio era aquela que ele mesmo administrava e que escreveu as peças baseado em relatos locais e "fofocas" dos moradores. Uma coisa é certa: apesar da crítica ao segundo livro ter sido bem ruim, devido a um desfecho bem sem graça, a história rendeu boas aventuras aos pesquisadores e parece revelar uma verdade bem intrigante por trás de toda essa lenda.

A celebração dos 400 anos de Shakespeare continuará por toda a Inglaterra durante este ano, como o mais célebre dramaturgo mundial, verdadeiro símbolo da língua e da identidade anglo-saxônica, mas a dúvida prevalecerá: onde estará o crânio de William Shakespeare? O Reverendo Patrick Taylor, pastor da Igreja em Stratford-Upon-Avon, onde Shakespeare nasceu em 1564, não tem certezas de nada. "Até pode estar onde se encontrava no dia de abril de 1616, em que o Mestre foi enterrado", afirma o pastor, ao contrário do que aponta a investigação de Kevin Colls. "É nossa intenção continuar a respeitar a santidade da sua sepultura, de acordo com o desejo do próprio Shakespeare, e não permitir que seja perturbado", declarou ao The Guardian. "Teremos que continuar a conviver com o mistério de não conhecer na totalidade o que se encontra sob a lápide".

Reverendo Patrick Taylor
A sepultura não está identificada com o nome de William Shakespeare. Nela vemos apenas uma inscrição: "Bom amigo, por amor a Jesus, abstém-te de escavar o pó aqui encerrado. Abençoado seja o homem que poupe estas pedras, e amaldiçoado aquele que remova meus ossos". Quando for resolvido, sem margem para a dúvida, o mistério do crânio desaparecido, um novo surgirá em seu lugar: haverá, a semelhança do túmulo de Tutankhamon, uma maldição de Shakespeare? E, se sim, que fim terá levado a vida de seus profanadores?

Epitáfio: Inscrição na lápide de Shakespeare, a possível "maldição". 

Vídeo Especial

Neste vídeo, além de uma apresentação mais descontraída do assunto, você verá imagens reais do documentário apresentado no Canal 4, além de inúmeras outras fotografias interessantes. Inscreva-se e receba nossos melhores conteúdos.


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Fontes e agradecimentos:
Edição Público Lisboa, 26 de março de 2016, página 24.
Historical Honey, por Simon Stirling, 22 de fevereiro de 2016.
The Guardian, por Mark Brown, 23 de março de 2016.