17/02/2016

Indonesia: Funeral Tana Toraja


Viajar o mundo, conhecer novas culturas, experimentar outros sabores, criar diferentes conexões: coisas que dão um novo significado à nossa vida. Conheça agora os interessantes costumes funerários e a insólita relação com a morte dos Torajans, que vivem em Tana Toraja, um grupo étnico nativo da região montanhosa do sul da ilha de Sulawesi, na Indonésia.

Em Tana Toraja, após a morte de um ente querido, o corpo é deixado dentro da casa por até um ano (e continua a ser tratado como um membro da família), até que uma elaborada cerimônia fúnebre esteja preparada para depois da próxima colheita. Os torajans não consideram o morto como alguém que realmente morreu. O cadáver é visto como alguém em estado de doença gravíssima, ou seja, ele continua deitado em sua cama recebendo tratamento de um moribundo: comida, bebida e cigarros. O odor de putrefação é mascarado, nos dias de hoje, usando formol, mas em outros tempos, um curandeiro da comunidade vinha até a casa do "doente" e "levava o cheiro embora". Suponho eu que eles usavam algum tipo de erva aromática ou coisa parecida.

Os Torajans tradicionalmente acreditam que a morte não é um evento abrupto repentino, mas um processo gradual para "Puya" (a terra das almas, ou vida após a morte). Durante o período de espera para o funeral, o corpo do falecido é envolto em várias camadas de pano e são mantidos sob a "Tongkonan" (casa funerária da família), lógico, as famílias que possuem uma, do contrário, são mantidos em casa mesmo. A alma do falecido permanece ao redor da aldeia até que a cerimônia seja concluída, quando começa sua jornada para "Puya".

No grande dia da celebração dos mortos, os caixões são cuidadosamente decorados e um Mestre de Cerimônias anuncia o início do evento.


Um time de mulheres trabalham em um instrumento local de percussão.


Os "Tuak" são um grupo de homens que dão as mãos em um círculo e cantam a história de vida do falecido, enquanto balançam em rotação lenta. Este "círculo da vida" se detém quando cada um, por sua vez, cantam seu próprio tributo ao morto e em seguida, juntam-se a uma espécie de coro em grupo.

Dançarinos funerários
A cerimônia acontece em um grande gramado cercado de casas tradicionais, chamado de "Rante". Músicas com flautas, cantos fúnebres, canções e poemas, choro e lamentações são expressões comuns em Toraja, exceto em funerais de crianças e adultos pobres. Na foto abaixo, as pessoas que caminham com roupas escuras do lado esquerdo da imagem, representam uma das delegações que "pagam" seus respeitos ao falecido, trazendo com eles búfalos, que serão sacrificados em nome do morto.


Segundo a religião original dos torajans, o "Alik to Dolo", Deus criou o homem, a terra e o búfalo para viverem em perfeita harmonia. Em vida, o homem deve cuidar do búfalo para que ambos possam trabalhar a terra. Na morte do homem, para recompensá-lo por ter sido bem tratado e alimentado, o búfalo deve ser sacrificado para levar a alma do homem ao céu.


Tendo em vista que os búfalos são animais caros por lá e que, normalmente, incorpora em si todo o patrimônio da família, o sacrifício destes animais durante os funerais também passa a ser um símbolo de status e poder. Quanto mais búfalos se sacrifica, mais rica e poderosa a família é. O tipo de búfalo também é importante, sendo o albino sem manchas o mais valioso.

Procissão da família em frente ao búfalo sacrificado.
Além do sacrifício dos búfalos, os torajans constroem em bambu enormes estruturas para abrigar toda a família e a comunidade que atende ao funeral. O evento, que dura cerca de sete dias, oferece abrigo e comida para mais de 500 pessoas transformando-se no maior evento da comunidade na vida de um torajan. Aí vem a pergunta que não quer calar: quem paga tudo isso?

Tenda Torajan sendo desmontada.
Os Torajans passam a vida toda juntando dinheiro para pagar seu próprio funeral ou o de seus pais. Contando que um búfalo normal custa em torno de 3 mil dólares e que um albino custa mais de 30 mil dólares, pode-se ter uma ideia de quanto custa o funeral todo. Detalhe: o número mínimo de sacrifícios considerado aceitável para um funeral digno em cada família é de 3 búfalos. Aproximadamente de 50 a 100 búfalos são mortos e esfolados no dia da grande matança. Porcos também são sacrificados e assados na mesma hora para alimentar a multidão que acompanha os rituais. 


Os sacrifícios também tem uma função social muito importante. Muito raramente o povo de lá tem acesso à carne para compor sua alimentação diária, justamente por ser um item muito caro. Nesta época dos funerais, a carne dos búfalos mortos é distribuída entre as dezenas de famílias que atendem à cerimônia, tendo o sacrifício uma função nutricional significativa. 

Distribuição de carne
Tal como acontece com o sacrifício de búfalos e porcos, uma briga de galos conhecida como "Londong Bulangan" é também parte da cerimônia. Esta briga de galos é considerada sagrada, pois envolve o derramamento de sangue na terra. Em particular, a tradição requer o sacrifício de pelo menos 3 galinhas. No entanto, é comum que pelo menos 25 pares de frangos sejam fixados uns contra os outros no contexto da cerimônia. 


Os mais velhos da comunidade tem a preferência dos melhores lugares para acompanhar os cortejos e os sacrifícios. 


Em todo o processo de matança dos búfalos, há uma relação de respeito entre o homem que é designado para matar o bicho e a posição que ele é colocado no centro da cerimônia: sua cabeça deve estar orientada para o norte de maneira a facilitar o caminho do morto aos céus. 


Respeito de quem dimensiona o privilégio da vida e carrega nas mãos a responsabilidade pela morte. Isso dura poucos minutos. A carne, então, é distribuída e a cabeça dos búfalos vão decorar a pilha de crânios do "Tongkonan" da família. 

Tongkonans decorados com a cabeça e os chifres de vários búfalos
Outra coisa curiosa relacionada aos funerais torajans são os Taus-Taus, uma espécie de efígie (não confunda com esfinge! rs) feita de madeira ou de bambu, que representa a pessoa que morreu. São pequenas estátuas esculpidas e vestidas que são colocadas em frente aos túmulos torajans para proteger a vida e guardar as tumbas. 

Escultor de Taus-taus




A palavra "Tau" significa "Homem" e "Tau-tau" significa "Homens" ou "Estátua". Acredita-se que tiveram sua origem no século 19 e, inicialmente, eram produzidos apenas para os ricos, para refletir o status e a riqueza dos falecidos. Mas no início de 1900, com a chegada dos missionários cristãos holandeses em Toraja, a produção de Taus-taus foi bastante atenuada. Em Toraja, 65% dos habitantes são protestantes e outros tantos por cento são católicos, de modo que as esculturas podem ser entendidas como "adoração infame" pela igreja. 

Torajans acreditam que os mortos podem levar seus pertences com eles na vida após a morte, desse modo, as efígies são equipadas com pequenas posses. Nos anos 1980, essas efígies tornaram-se alvo fácil de saqueadores de túmulos, que levavam os bens dos mortos e também as efígies com eles para serem vendidos a museus e colecionadores de coisas bizarras. Em resposta a estes saqueadores, os torajans escondem seus Taus-taus com posses em locais não revelados. Eles também instalaram cercas elétricas que cercam suas sepulturas rupestres para proteger os taus-taus. É um pouco irônico saber que essas esculturas estão lá para proteger a vida e, agora, precisam ser protegidos da "vida". 

Nobres Torajans, 1972
Tradicionalmente, as efígies eram esculpidas apenas para mostrar o sexo dos falecidos. No entanto, tornaram-se mais elaborados, tentando imitar a semelhança com o morto, contendo inclusive rugas nos seus rostos. Uma das coisas com as quais eles são colocados na frente dos túmulos são Bíblias. Os tipos de madeira utilizados para esculpir também refletem o status da família. Ricos usam madeira de jaqueira. Os construtores de Taus-taus exigem o pagamento de vários búfalos, de modo que apenas os ricos tem o suficiente para pagar. Os menos ricos e os pobres tem seus taus-taus feitos geralmente de bambu e, no final da cerimônia de enterro, são despidos, deixando apenas o bambu no campo onde foi feito o ritual. 

Agora, vejamos as tumbas. Existem 3 métodos de enterro: o caixão pode ser pendurado em um penhasco, pode ser colocado em um túmulo de pedra esculpida ou colocados em uma caverna. 

Túmulos em encostas de penhascos
Caixões pendurados na encosta de um penhasco em Sulawesi
Tumbas cortadas em um penhasco em Sulawesi
O enterro dos corpos, finalmente.
Tumbas rupestres em cavernas em Sulawesi
Veja aonde os bebês são enterrados em Tana Toraja: 


Torajans enterram seus bebês e lactantes dentro de árvores em Kambira, que fica a um quilômetro de Sangalla. Por definição, um bebê Torajan é uma criança em que ainda não tinham crescido dentes. O lugar é um local com muita sombra, tranquilo. Os corpos são enterrados na posição vertical, pois a crença local diz que eles vão continuar crescendo junto com a árvore. "Nós enterramos os bebês nas árvores para que o vento possa levar suas almas para longe", explica Stefan, um guia local. Também pode acontecer de o caixão dos bebês serem pendurados por cordas em um penhasco e eles ficam pendurados lá durante muitos anos, até que as cordas se rompam ao apodrecer e o caixão caia no chão. 

Por fim, falemos sobre o ritual chamado "Ma'Nene". Ele acontece a cada ano no mês de agosto, onde os corpos dos falecidos são exumados para serem lavados, arrumados e vestidos com roupas novas. As múmias são levadas, então, para um passeio pela vila. 


Ma'Nene é um festival de culto aos antepassados, e permite que as famílias revejam seus entes queridos. Eles passam o dia todo festejando a vida após a morte. 


Este festival pode parecer macabro para as pessoas de outras culturas, mas para as pessoas de Tana Toraja, é uma expressão de amor sincera que ultrapassa a morte. "Para os moradores de Tana Toraja, o festival é sinal do amor que ainda compartilham com aqueles que já faleceram, mas que ainda estão presentes espiritualmente", diz Paul Koudounaris, fotógrafo. "É uma forma de mostrar-lhes o respeito, por deixá-los saberem que eles ainda são membros do grupo familiar, e ainda ocupam um lugar importante na sociedade local". 


Inclusive os óculos são mantidos.
Brincos, e outras jóias também.
Muitos sites maliciosos fizeram matérias bastante errôneas sobre os rituais que acontecem na Indonésia. Uma das notícias mais difundidas neste porte foi a de que "mortos estariam se levantando das tumbas por meio de magia negra na Indonésia". Uma das fotos virais da época foi esta abaixo: 


Muito disso deve-se à febre com a série The Walking Dead, que começou a levantar rumores de um apocalipse zumbi no mundo. Pois bem, não estamos no final dos tempos onde os mortos levantam de seus túmulos anunciando a vinda de Cristo (que me perdoem pela piada de mal gosto). Trata-se apenas de sensacionalismo, de pessoas que infelizmente, ganham a vida espalhando falsas notícias, sem pesquisa ou intencionalmente. Agora que você já sabe quase tudo sobre isso, poderá ter uma boa base de argumentação, não é mesmo? Rs. Confira mais algumas fotos deste ritual, que Narciso acha macabro, mas nós achamos super interessante! 









Muitas pessoas dirão que é um ritual sinistro e injusto pela matança dos animais, porém nenhuma instituição legal intervém por se tratar de uma expressão cultural e religiosa dos Torajans e os reconhece como legítimos, pois vem acontecendo há muitos anos. 

No Youtube você pode encontrar vários vídeos mostrando a cerimônia. Divirtam-se! 
Para mais fotos, visite: Travel Pod

Fontes e agradecimentos:
Ivan e Gabi, do site "E se fôssemos para..."
Paul Koudounaris, do site "Paul Travel Blog"
Wikipedia
Travel Pod